quinta-feira, 20 de maio de 2010

(2010/018) Comentários...

Caros amigos, atentem aos detalhes! Por mais que não veja postagens "oficiais" por aqui, veja os debates travados nos comentários (exemplo, post 2010/017)... Não perca! Ah, e opine também...

DANIEL BRASIL JUSTI

segunda-feira, 17 de maio de 2010

(2010/017) História Cultural de Ginzburg?

1. Saudações a todos amigos de caça nessa semana que se inicia! Não se irrite, correligionário caçador, caso ainda não tenha satisfeita sua fome de destrinchar o texto de Ginzburg. Os compromissos acadêmicos desses que dirigem o blog são muitos e também a preparação de textos mais sólidos para postagem estão à caminho. Enquanto isso, discutamos com a excelente professora Jacqueline Hermann, do Departamento de História da UFRJ. Pessoalmete cursei sua disciplina de História Moderna II e aqui endosso sua competência pela publicação e (meus) ligeiros comentários de sua leitura sobre a obra de Ginzburg.

2. Em tempo: o texto abaixo foi retirado do site "História & Memória", um periódico eletrônico mantido por alguns alunos e ex-alunos de História do Instituto de Filosofia e Ciências Sociais da UFRJ. O endereço? Ficou curioso? Quer visitar/contribuir com o site dos colegas? Eis o link: http://www.ifcs.ufrj.br/humanas/

3. O texto, na íntegra (os destaques são meus):

A História Cultural de Carlo Ginzburg

Jacqueline Hermann
Professora de História Moderna da UFRJ

3.1. “Eu disse que segundo meu pensamento e crença tudo era um caos [...] e de todo aquele volume em movimento se formou uma massa, do mesmo modo como o queijo é feito do leite, e do qual surgem os vermes, e esses formam os anjos. A santíssima majestade quis que aquilo fosse Deus e os outros, anjos, e entre todos aqueles anjos estava Deus, ele também criado daquela massa, naquele mesmo momento...”

3.2. Essas poucas frases resumem o núcleo das idéias defendidas por Domenico Scandela, o moleiro conhecido como Menocchio, diante dos inquisidores italianos, em 1584. Nascido em Montereale, pequena aldeia do Friuli, foi denunciado ao Santo Ofício pelo pároco dom Odorico Vorai, antigo desafeto que o acusava de pronunciar palavras “heréticas e totalmente ímpias”. Crítico do clero, da Igreja e da opressão contra os pobres, Menocchio foi descoberto por acaso quase quatro séculos depois. A análise cuidadosa de seu processo deu origem ao clássico O queijo e os vermes, livro publicado em 1976 e editado no Brasil 10 anos depois.1

3.3. A história de Menocchio não é, no entanto, apenas um relato insólito e extraordinário de algum personagem bizarro, embora ele seja também peculiar. Na lente de Ginzburg, e dando curso a reflexões que se iniciaram antes desse trabalho, a análise do estranho caso de um moleiro perdido nos campos de uma Itália em luta contra o avanço protestante deu corpo a uma profunda reflexão sobre a escrita da história, suas dificuldades, desafios e possibilidades.

3.4. Ainda nos anos de 1960, quando pesquisava processos de bruxaria entre os séculos XVI e XVII, Ginzburg deparou-se com um conjunto de documentos sobre os benandanti, ou os andarilhos do bem, defensores das colheitas contra bruxos e feiticeiros. A análise do ritual de fertilidade seguido por esses camponeses, resultou no livro I benadanti2, publicado originalmente em1966, e que revelou um núcleo de crenças populares ainda muito identificadas a resquícios de uma cultura oral, pagã e popular de longa duração, mas que paulatinamente foram assimilados à feitiçaria. Ginzburg estaria analisando a essa altura, e segundo suas próprias palavras “a mentalidade de uma sociedade camponesa” e suas conclusões apontavam para um processo de aculturação dos benandanti, na medida em que, entre 1580 e 1650 estes passaram de uma atitude de defesa da autenticidade de suas crenças para uma aceitação gradativa da acusação de feitiçaria perpetrada pelos inquisidores.

3.5. Durante o trabalho sobre os benandanti, Ginzburg encontrou o processo de Menocchio e, dez anos depois, era publicada a história do moleiro friulano. Entre os dois livros, no entanto, um longo percurso teórico-metodológico alterou substancialmente as idéias de Ginzburg acerca das relações entre as classes subalternas e dominantes, ou, para falarmos dos processos inquisitoriais estudados, entre inquisidores e populares camponeses acusados de feitiçaria. Se no caso dos benandanti a assimilação das acusações parecia refletir sem muita dificuldade a dominação de uma “mentalidade” vitoriosa, no caso de Menocchio as certezas deram lugar a uma flexibilidade maior e à necessidade de reformulações nas peças de um delicado quebra-cabeças.

3.6. Já no Prefácio de O queijo e os vermes o autor deixa clara a recusa do conceito de mentalidade, exatamente pelo que mais havia valorizado na trajetória dos andarilhos do bem: o caráter interclassista e de longa duração das crenças populares, tomadas sempre no que tinham de aparentemente imóvel, inconsciente, irracional. Para Ginzburg, as idéias de Menocchio não podiam ser diluídas e ocultadas no que pudessem ter de original, e mesmo admitindo que sua decifração completa e definitiva jamais poderá ser alcançada, optou pelo termo “cultura” em sua acepção antropológica: conjunto de atitudes, crenças, códigos de comportamento próprios das classes subalternas num certo período histórico. Aliou, assim, ao estudo de práticas e crenças populares o conceito de classes para reencontrar, renovado, o conflito social banido das mentalités.

3.7. Mas além desse passo, nada pequeno, diga-se de passagem, Ginzburg defrontou-se ainda com o desafio de resgatar, ou reinventar, no terreno da cultura, as diferentes maneiras de enfrentamento entre cultura dominante e subalterna. Admitidos os dois níveis, e afastada a possibilidade de uma assimilação direta da cultura dominante pelos populares, Ginzburg encontrou em Mikhail Bakthin a inspiração para a formulação do conceito de circularidade cultural. Na obra L'ouvre de François Rabelais et la culture populaire au Moyen Age et sous la Renaissance3, publicada na França em 1970, Bakthin procurou compreender a presença de termos chulos, grosseiros e obscenos na obra de Rabelais, um literato e médico francês que freqüentava a corte, e encontrou na convivência de Rabelais com o mundo da praça pública a explicação para a presença de aspectos populares em sua obra. Sem entrar no mérito da avaliação nada lisonjeira que Bakthin faz da cultura popular renascentista, Ginzburg resgatou do lingüista russo a dinâmica cultural que levou Rabelais a assimilar aspectos da cultura popular e aprofundou a reflexão sobre o movimento recíproco e contínuo que influencia os diferentes níveis culturais.

3.8. No caso de Menocchio, um moleiro que destoava do seu grupo por saber ler e escrever, Ginzburg descobriu uma teia de imbricações, reapropriações e, mesmo admitindo ser Scandela e sua história “um fragmento perdido, que só nos alcançou por acaso [...], através de um gesto arbitrário”, fez da decifração de sua cosmogonia um ensaio de teoria e metodologia, um roteiro para o estudo do que hoje chamamos “história cultural”. Como um antropólogo, ou, para usar sua própria formulação, como um verdadeiro inquisidor4, nosso autor desbravou os processos de Menocchio procurando desvendar os prováveis, ou improváveis, caminhos assumidos pela interpretação peculiar de textos como os de Boccacio, Mandeville e da própria Bíblia, capazes de ensejar a elaboração da fantástica tese do queijo e dos vermes.

3.9. O contato com o mundo das letras, e mesmo com textos sofisticados, não retirou Menocchio de sua cultura, mas, ao contrário, realçou a especificidade de suas interpretações, adaptadas a uma realidade ainda refratária a abstrações e fortemente marcada pela vivência concreta e materializada dos fenômenos religiosos e das religiosidades. Para entender a origem do mundo, Menocchio serviu-se de algo que lhe era familiar, cotidiano, conhecido: fez da origem do queijo e dos vermes, por analogia, a Gênese; através da mistura de cultos pagãos e cristãos deu suporte à sua formulação herética.

3.10. Mas se uma análise tão aprofundada da história de um herege que acabou queimado pela inquisição por não conseguir deixar de propagar suas idéias pode parecer apenas o relato excepcional de um personagem bizarro, devemos novamente estar atentos às advertências do autor: “dois grandes eventos históricos tornaram possível um caso como o de Menocchio: a invenção da imprensa e a Reforma”. É, portanto, no cruzamento entre a micro-história de nosso moleiro e a macro-história das Reformas e das transformações que marcaram a Época Moderna que podemos entender a “produção” de um personagem como Menocchio. Domenico Scandela encarnou a dinâmica da circularidade cultural, tendo acesso a livros produzidos pela cultura letrada e adaptando suas leituras às vivências cotidianas de uma comunidade camponesa.

3.11. Ginzburg levaria ainda mais longe suas reflexões sobre os diferentes níveis de interpenetração das culturas com o seu História Noturna. Decifrando o sabá5, publicado em 1989. Com esse trabalho, praticamente se fecha o ciclo iniciado com os benandanti: partindo da força da cultura dominante, Ginzburg descobriu com Menocchio a resistência da cultura subalterna e a circularidade cultural entre as classes dominantes e populares, até chegar à decifração do estereótipo do sabá, construção da cultura letrada, porém eivada de reminiscências pagãs, de longuíssima duração, e reveladora de uma dinâmica cultural ainda mais complexa que a apontada no caso de Menocchio. Fruto da obsessão de inquisidores e juízes, o estudo do ritual do sabá feito por Ginzburg desvendou uma história “noturna” e desconhecida, alimentada por mitos e medos ancestrais, conformando o que o autor chamou de “formação híbrida de compromisso”, resultado híbrido de um conflito entre cultura folclórica e cultura erudita. Na história noturna do sabá, Ginzburg retoma a problemática dos benandanti e avança ainda mais teoricamente ao observar perseguidores e perseguidos igualmente atravessados pela dinâmica dos encontros e embates culturais.

3.12. Como se vê, foram muitos os temas tratados por Carlo Ginzbrug ao longo de mais de 30 anos de pesquisa dedicada à feitiçaria, às religiosidades populares, à cultura em sua dimensão histórico-antropológica. Publicados desde meados da década de 80 no Brasil, seus trabalhos, felizmente, abriram um campo de investigação bastante promissor entre nós. Só para lembrar dois exemplos de nossa melhor historiografia e que claramente incorporaram os passos indicados por Ginzburg, cito o livro pioneiro no estudo da feitiçaria e das religiosidades populares no Brasil colonial, O Diabo e a Terra de Santa Cruz, de Laura de Mello e Souza, e A Heresia dos Índios, de Ronaldo Vainfas, que reconstrói a história de uma seita católico-tupinambá acolhida por um senhor de engenho na segunda metade do século XVI.6

3.13. Abordagem sofisticada e minuciosa, a história cultural tal como concebida por Carlo Ginzburg se interessa pelo detalhe e pelo contexto, pelas micro e pelas macro-questões que, articuladas, podem nos aproximar um pouco mais de nossos antepassados. Decifração de indícios, ciência do particular, a história cultural se move em terreno acidentado e misterioso e, sem prescindir jamais das fontes, autoriza alguns vôos, muitos deles também noturnos, já que “a tentativa de conhecer o passado também é uma viagem ao mundo dos mortos.”

NOTAS:
1 O queijo e os vermes. O cotidiano e as idéias de um moleiro perseguido pela inquisição. A primeira edição italiana do livro é da Giulio Einaudi Editore, 1976. A edição brasileira é da Companhia das Letras, 1986.
2 A tradução brasileira é de 1988, com o nome Os andarilhos do bem. Feitiçarias e cultos agrários nos séculos XVI e XVII, pela Companhia das Letras.
3 Publicado no Brasil com o título A cultura popular na Idade Média e no Renascimento. O contexto de François Rabelais. São Paulo: Hucitec, 1987.
4 Refiro-me ao texto “O inquisidor como antropólogo: uma analogia e suas implicações” in Micro-História e Outros Ensaios. Lisboa: Difel, 1991.
5 A edição brasileira de História Noturna também é da Companhia das Letras.
6 Os dois trabalhos foram editados pela Companhia das Letras. O primeiro, O Diabo e a Terra de Santa Cruz. Feitiçaria e religiosidade popular no Brasil colonial, é de 1986 e o segundo, A Heresia dos Índios. Catolicismo e rebeldia no Brasil colonial, é de 1995.

4. Antes de mais nada, um bom aplauso ao texto da professora! (Advertência: esse post não tem caráter apologético ou adulador, pois já fui aprovado na disciplina de Moderna II).
O texto é preciso em analisar o contexto de produção de "O Queijo e os Vermes" e mais, coloca em relevo a matriz teórica sobre a qual Ginzburg se apóia e dialoga para entender o processo de "circularidade cultural".

5. O termo "história cultural" atribuído a Ginzburg nesse texto, porém, merece dois comentários. (i) Vincular a micro-história com a história cultural rompe com barreiras taxonômicas e estanques, como se ao intelectual "rigoroso" só fosse possível aplicar modelos fechados/prontos para cada objeto por vez. Romper esses limites me agrada, essa perspectiva holística da ciência é um bom caminho; (ii) Pontuar o trabalho de Ginzburg como "história cultural", no geral, e "micro-história", no particular, minimiza a riqueza metodológica do saber indiciário. Explico.

6. A partir da década de 70, do século XX, a já forte tradição emanada dos Analles, conhece uma "virada cultural", ou seja, a história dialoga com as demais ciências humanas/sociais, especialmente com a antropologia e, sobre a base da "história da mentalidades, concentra um olhar mais sobre a ação humana como objeto de análise do conhecimento histórico. O desdobramento disso é a disseminação de abordagens mais particulares, como a história de gênero, de costumes, hábitos, crenças, enfim, culturais. Sobre esse aspecto, o destaque acima no parágrafo 3.6 é preciso. Ainda, o deslocamento teórico e metodológico que o empreendimento de Ginzburg imprime à historiografia é notável. Porém, o conceito de cultura circular que emerge dos estudos do historiador italiano não é suficiente para o colocar ao lado, ou pelo menos na mesma categoria, de uma história cultural, no sentido conceitual do termo dentro da historiografia.

7. Considerando a "História Cultural" de Roger Chartier, por exemplo, grande nome dessa escola teórica, afasta Ginzburg dessa maneira de fazer história. Os motivos? Ora, a história como narrativa é o principal deles. Se o referencial é história cultural, entendida como história narrativa, tal qual Chartier, Gilberto Freyre (Casa Grande e Senzala) ou Sérgio Buarque de Holanda (Raízes do Brasil), estamos falando de coisas diferentíssimas! Digressão: muito embora as obras brasileiras citadas sejam da década de 30, é quase unânime, entre historiadores, tê-las como "história cultural". Sem dúvida o debate teórico é intenso nesse campo, mas o que não se pode perder de vista é a interdisciplinaridade de Ginzburg (o caso citado em 3.10 sobre a interseção de micro e macro história - caso particular na análise - não pode se tornar regra do ofício teórico de Ginzburg) em confusão com sua adoção metodologica.

8. Não se quer aqui acusar a professora de engano epistemológico, mesmo porque do último parágrafo do texto desenha-se aquele caçador que conhecemos bem:
Abordagem sofisticada e minuciosa, a história cultural tal como concebida por Carlo Ginzburg se interessa pelo detalhe e pelo contexto, pelas micro e pelas macro-questões que, articuladas, podem nos aproximar um pouco mais de nossos antepassados. Decifração de indícios, ciência do particular, a história cultural se move em terreno acidentado e misterioso e, sem prescindir jamais das fontes, autoriza alguns vôos, muitos deles também noturnos, já que “a tentativa de conhecer o passado também é uma viagem ao mundo dos mortos.”
Muito embora, seja micro-história ou história cultural, para nosso amigo italiano, história não se faz com narrativa, muito menos com dicotomizações.

DANIEL BRASIL JUSTI

sexta-feira, 14 de maio de 2010

(2010/016) O sentido das coisas


1. A propósito do que esse blog comentou em alguns posts e "provocado" pelo post, (2010/379) De certo uso do termo semiótica e saída pela direita, de meu amigo blogueiro Osvaldo, em seu outro blog conjunto com amigos, teço a seguir alguns comentários.

2. A tentativa de alguns intelectuais em promover, nas ciências humanas e sociais, a busca pelo sentido, como herdeiros de um deslocamento pós-moderno da verdade das coisas em si para a verdade enquanto produção do sujeito único, portanto subjetivo, como consequencia, relativa, traz algumas contradições. No post mencionado, Osvaldo evita fazer um status quaestionis do assunto. Como Chronos não me tem sido favorável nos últimos meses, aqui também não tenho tal intento. Mas ocupo-me em sublinhar um aspecto desse tema que me causa urticária.

3. Viajemos a Gadamer. No contexto intelectual em que se insere sua produção do livro de irônico título "Verdade e Método", o autor situa o seguinte cenário polarizado: de um lado os objetivistas, os proponentes de uma análise histórica fundada na verdade do objeto em si onde o sujeito pouco interfere na construção histórica e a representação do conhecimento histórico está menos focada na subjetividade do sujeito e mais voltada para a busca do objeto em si. Segundo Gadamer esse pólo peca por estinguir a distância temporal do binômio sujeito/objeto e, portanto, constrói uma verdade muito mais como leitura do passado a partir de um presente. Na outra extremidade do pólo, os subjetivistas, aqueles que suprimem a existência do obbjeto passado em si mesmo e enfatizam majoritariamente o sujeito que representa esse passado. Assim, toda a verdade construída pelo discurso histórico está pautada na subjetividade do individuo que, por não mais poder acessar o passado em si, ou até mesmo negar sua existência, constrói sua representação.

4. Crise da representação ou virada linguística. É esse o nome que a historiografia deu para o evento acima descrito no qual Gadamer propõe uma via média. A mediação desses dois pólos então seria, antes de qualquer análise histórica, o sujeito observar o que a tradição diz sobre aquele objeto, depois, mesmo negando a existência do objeto em si, pois se perdeu no passado, construir uma narrativa, a partir da hermenêutica filosófica para re-apresentar o passado em termos do presente. Ou seja, a "fusão de horizontes, passado e futuro" como construção da verdade heurística. Note-se aí a importância do sujeito presente e da composição da narrativa para construção do objeto.

5. Ora, o método em si proposto por Gadamer, a hermenêutica filosófica, traria à ciência então, a única e exclusiva função de atualizar o passado nos termos do presente. Sendo assim, o evento passado, o fato histórico em si, desaparece e o que surge então é a narrativa, o discurso sobre esse passado. A virada linguistica em Gadamer e em seus sucessores é promovida, pois do objeto em si nada mais se tem, o que se tem é um discurso, uma narrativa sobre ele, logo, somente a linguistica e análise do discurso seriam capaz de dar conta do conhecimento histórico-científico.

6. Ainda, um debate pode ser relembrado para situar mais um pouco essa questão. Carl Gustav Hempel entendia a história a partir de um modelo dedutivo-nomológico, ou seja, adotando o modelo das ciências naturais (observação, experimento e formulação de leis gerais) a história poderia ser capaz de enunciar grandes aspectos gerais que comporiam um rumo pelo qual a história caminha e caminharia, no futuro...
William Dray, por sua vez, contrapõe tal argumento e quer voltar a Dilthey: "o padrão das ciências do espírito não pode ser o mesmo das ciências naturais". Dessa forma, cada evento histórico deve ser análisado a partir de suas particularidades, somente. Não se pode formular leis gerias, apenas conceitos, como ferramentas cognitivas que melhor ajudam a compreender a realidade. Eis uma conclusão importante de Dray a partir do que ele propõe: o historiador deve, então, contar uma história dotada de sentido, com validade discurssiva, para dar sentido ao que analisa, ou seja, eventos históricos particulares, e por serem particulares, dotados de sentido.
Depois dessa mudança promovida por Dray, A. C. Danto estabelece que a narrativa é a forma característica melhor de contar a história, pois confere sentido à realidade.
O desdobramento posterior a isso aparece com vigor no texto de Lawrence Stone, "o retorno da narrativa", onde o historiador inglês assume a verdade de Danto e complementa: "a narrativa nunca saiu do 'jogo' da história, mas foi eclipsada. Daí em diante, são forjados os conceitos da historiografia pós-moderna (não fundacional, segundo termos do Osvaldo) calcados na linguistica e retórica.

7. Pequena digressão: Paul Ricouer é a "voz que clama no deserto" indicando a necessidade de se redefinir o conceito de narrativa para tentar ordenar esse impasse metodológico, pois o conceito de narrativa estaria na base das vertentes historiográficas pós modernas e as derivadas dos Annales.

8. Enfim, com breves citações do que, para mim é uma parte da gênese dessa chaga pós moderna de conferir sentido ao discurso científico, convém destacar um incômodo advindo de uma contradição que percebo no discurso desses cientistas saudosos de uma metafísica que se foi no século XIX (sim, com primieros processos no XVIII).

9. O contexto imediato das Grandes Guerras na Europa, nesse caso, para mim, é decisivo para remontar a busca pelo sentido nas ciências. O existencialismo indagador do vazio de sentido no projeto ocidental-racional, filho do Iluminismo, questiona as bases epistemológicas da configuração científica que o bicho homem vai construindo nos moldes das ciências humanas e sociais. Sendo assim, a questão é: que sentido a apreensão de realidade via modelo racional-cartesiano deixa como legado? Se as coisas, em si mesmas (leia-se, construção social da civilização ocidental) são vazias de sentido, se a existência é um sem-sentido completo, algo precisa mudar...

10. Ora, o que se vê até hoje é essa questão de fundo, dessa forma, negar o projeto científico-racional construído até então como um incômodo, daí a necessidade de se formular uma nova saída, a semiótica. Há quem resista a isso, mas esses, taxados de neopositivistas, sobra a censura pós-moderna...


11. Desculpem o arrazoado, redigido em transe, como o post (2010/009) de meu amigo co-blogueiro, mas é uma intuição que me perturba, faz algum "sentido"?

DANIEL BRASIL JUSTI


quinta-feira, 13 de maio de 2010

(2010/015) Educação nos quatro cantos do mundo?!


1. Seria esse um projeto possível? Se o é, não sei bem, mas que tem gente pensando nisso, isso tem! Por quais razões? Com que objetivos? Também não o sei. O fato é que existe!

2. Para tanto, amigo leitor, visite o site:
http://academicearth.org/

3. Pois então, entendeu do que se trata? Não? Sim? Vejamos o que eles mesmos têm a dizer:

"Academic Earth is an organization founded with the goal of giving everyone on earth access to a world-class education. Academic Earth é uma organização fundada com o objetivo de fornecer a todos na Terra acesso a educação global.

As more and more high quality educational content becomes available online for free, we ask ourselves, what are the real barriers to achieving a world class education? At Academic Earth, we are working to identify these barriers and find innovative ways to use technology to increase the ease of learning. Mais e mais conteúdo educacional de alta qualidade se torna disponível gratuitamente, perguntamos a nós mesmos, quais as verdadeiras barreiras a superar rumo a uma educação global? Em Academic Earth, nós estamos trabalhando para identificar essas barreiras e encontrar caminhos inovadores para usar a tecnologia para aumentar a facilidade de aprendizado.

We are building a user-friendly educational ecosystem that will give internet users around the world the ability to easily find, interact with, and learn from full video courses and lectures from the world’s leading scholars. Our goal is to bring the best content together in one place and create an environment in which that content is remarkably easy to use and where user contributions make existing content increasingly valuable. Nós estamos construindo uma rede de sistema educacional acessível que dará aos usuários de internet ao redor do mundo a habilidade de facilmente encontrar, interagir e aprender a partir de cursos em vídeo e apresentações proveninetes de intelectuais renomados em todo o mundo. Nosso alvo é trazer o melhor conteúdo em um único espaço e criar um ambiente no qual esse conteúdo é marcadamente fácil de usar e onde as contribuições dos usuários façam desse mesmo conteúdo permanentemente valioso.

We invite those who share our passion to explore our website, participate in our online community, and help us continue to find new ways to make learning easier for everyone. Nós convidamos aqueles que compartilham dessa nossa paixão a explorar nosso sítio, participar de nossa comunidade virtual e ajudar-nos a continuar encontrando novos caminhos para fazer do ensino mais fácil a todos.

Academic Earth is headquartered in San Francisco, CA." Academic Earth é sediada em São Francisco, Califórnia.


4. Dessa vez, rudes caçadores que nos acompanham, traduzi o texto na íntegra. Mas é de se questionar o vocabulário, por vezes, beligerante da apresentação do site, não acham? "Educação global", "barreiras a superar rumo a uma educação global"... Pode ser uma mania crítica de um historiador "chato", mas que é curioso o projeto, isso é...


5. É isso, então. Afiem seus conhecimentos da língua anglo-saxã (sim, os vídeos não têm legendas) e desfrutem de vídeo-aulas disponibilizadas a partir de conceituadas universidades que ministram seus cursos nas mais diversas áreas.


DANIEL BRASIL JUSTI


p.s.: quem financia esse projeto? O site não deixa claro, mas a base principal de onde vem a idéia é a Universidade de Yale.

quarta-feira, 12 de maio de 2010

(2010/014) Indiciarismo, ainda...

1. Brilhante, Osvaldo, brilhante a indicação do site Indiciarismo.net. Andei vendo os artigos e, certamente, esse fim de semana os lerei.

2. Para aproveitar essa indicação sua e o tema desse blog, quero também propor um exercício. A você, amigo co-blogueiro, e aos nossos assíduos caçadores.

3. Estava eu lendo as notícias diárias, como todos os dias faço na internet, quando vi uma pequena chamada que falava sobre o acidente com o avião da Air France, ano passado. Pois é, a nota era pequena mesmo, mas como a mídia e o povo, em geral, têm memória com prazo de validade curto ou os assuntos correntes obedecem a modismos periódicos, volto ao tema, mas sob um outro olhar.

4. O link com a notícia, veja aqui.

5. A notícia, em trechos selecionados e destacados:

Após dados de submarino, França diz esperar encontrar destroços do avião da Air France

5.1. Os investigadores franceses encarregados de determinar as causas do acidente com o voo 447 da Air France, que caiu no oceano Atlântico em 31 de maio do ano passado, afirmaram nesta segunda-feira que esperam localizar os destroços da aeronave, com as novas pistas apresentadas por um submarino nuclear francês.

5.2. A partir dessas informações, estabeleceu-se uma zona de 200 km quadrados situada mais ao sudeste da região onde até agora se buscava o avião, na costa brasileira. As pesquisas se voltam a este novo perímetro, afirmou hoje, em Paris, o diretor do Escritório de Investigação e Análise (BEA, na sigla em francês), Jean-Paul Troadec.

5.3. A mudança de parâmetro de busca foi feita na sexta-feira passada, depois de se captar sinais sonoros que possivelmente eram as emissões das caixas-pretas do avião.

5.4. Troadec assegurou que os sinais captados pelo submarino nuclear correspondem por intensidade, frequência e forma aos emitidos pelas caixas-pretas dos aviões e descartou que sejam sons de origem biológica ou geológica.

5.5. Em dois dias, os submarinos do navio norueguês "Seabed Worker" encerrarão as buscas nessa nova área e, então, se saberá se as informações da Marinha francesa eram corretas, afirmou em entrevista coletiva.

5.6. Por enquanto, foram explorados dois terços dessa área retangular, de 10 km de comprimento e 20 km de largura, onde se estima estarem os restos do avião, conforme os dados obtidos pelo submarino nuclear "Emeraude". Ainda não foram encontradas as caixas-pretas do Airbus A330, fundamentais para se determinar as causas do acidente, que causou a morte dos 228 ocupantes do avião.

5.7. Apesar de admitir que a zona de busca é muito complexa por causa do relevo acidentado no fundo do mar, a uma profundidade entre 2.600 e 3.600 metros, Troadec assinalou que essa é a melhor pista que os investigadores têm e que, portanto, nela vai se centrar a nova campanha de buscas.

5.8. A essa campanha, que irá até o dia 25, serão destinados 3 milhões de euros, financiados pela companhia aérea Air France e pela Airbus, fabricante da aeronave. Troadec não afirmou se haverá mais investigações caso as atuais não tenham êxito.

Na última quinta, a França informou que os destroços do avião estão em uma zona do "tamanho de Paris, onde o relevo submarino se assemelha à Cordilheira dos Andes".

(...)

5.9. As caixas-pretas com os registros de voo continuam desaparecidas, e apenas pequenas
partes dos destroços do Airbus A330 foram encontradas.

6. Ao ler essa notícia, com atenção aos dados destacados (destaque meu), me pus a pensar em como um historiador analisaria esse fato. De imediato, me veio à mente duas perspectivas: (a) adotando a perspectiva de uma história baseada na narrativa, centrada em análises linguisticas e retóricas, o enunciado seria: "o acidente, enquanto tal, o objeto "acidente em si" jamais poderá revelar algo sobre o acontecido, é impossível determinar as causas ou porquês do acidente. O sujeito-leitor é que deve, a partir de sua cosmovisão, hoje, determinar a discurssividade desse evento"; (b) aos moldes de Ginzburg e outros (rotulados de) "neopositivistas" ou "objetivistas" diriam: "é necessário examinar os dados, os indícios, os sinais mais negligenciáveis do fato ou do que temos sobre o fato e re-construir o evento em si, pois o objeto 'acidente de avião', por meio de seus vestígios, pode sim ser compreendido."

7. Tudo bem que esse blog não é discípulo de Nostradamus e nem quer proferir vaticínios acerca do que um ou outro faria em situações como essas. Porém, o que se faz muito claro nessa perspectiva é a operação racional que se desenrolou pelas agências investigativas na busca pelo evento fundante. Sinais foram captados. Novas pistas. Uma nova abordagem foi estabelcida. Um "recorte" na área foi efetuado, ou seja, uma delimitação do espaço onde se quer analisar. A zona de pesquisa é muito complexa. Esses sinais são as melhores pistas que se tem sobre o evento.

8. Ora, caro amigo leitor, o procedimento adotado pelas equipes de busca não é, em nada, em absolutamente nada, diferente daquele adotado por estudiosos que se identificam com a epistemologia (b) acima descrita. O evento aconteceu. O objeto "acidente do avião" tem algo a falar. O que nos sobram são pistas, vestígios, somente. Pois bem, uma perícope (do grego: peri = em torno; kopeo = corte) marítima foi estabelcida. A despeito das dificuldades que se tem em proceder à busca, essa é a melhor maneira que se enxerga no momento. Ora, isso não cheira a método historiográfico, exegético, heurístico de estudo do passado?

9. Uma distância temporal se coloca entre os investigadores e o evento em si. Mas isso é motivo para não se conhecer o que houve? Sim e não. Sim porque somente o piloto, tripulação e passageiros poderiam dizer o que verdadeiramente aconteceu, isso, de fato, perdemos. Não, pois os vestígios lá estão, não são "representações", não são "interpretações", são objetos, fatos, peças, mas precisam ser coladas. Assim, um peça do lado da outra, será possível estabelecer uma leitura plausível do acontecimento.

10. Desvendar o que ocasionou o acidente ameniza a dor das famílias que perderam seus entes queridos? Não. Todos sabem que não ameniza e muito menos os trás de volta. E quem disse que essa investigação tem, neceessariamente, que produzir sentido? Quem disse que o estudo de textos históricos, bíblicos, poéticos, acontecimentos passados políticos, sociais, etc, têm que produzir sentido? Antes, desvelar a realidade. Eis o que nos distingue de toda espécie que respira sob a face de Gaia. Apreensão da realidade. O sentido? Ah, esse deixe que cada família produza seus próprios mitos, deixe que cada tradição cultural na qual estão inseridos expliquem e ordenem a tragédia de uma forma que produza sentido para aqueles corações partidos...

11. A ciência? Deixe que essa desvele a realidade, daí pra frente, que ela se cale, pois seu papel estará feito: abateu a caça. Banquetemos, pois, com efusivos brindes à ciência, pois sabemos que dela tudo o que podemos obter são os fatos e que cada um os mitifique como lhe convier...

DANIEL BRASIL JUSTI

segunda-feira, 10 de maio de 2010

(2010/013) Indiciarismo.net - Núcleo de Estudos e Pesquisas Indiciárias da UFES


1. Enquanto escrevia "Viver Hermeneuticamente no Mundo (I) – pragmática como ação humana intencional e situada" (que sairá pela Caminhos, da PUC-Goiás), continuação de meu artigo "O Complexo Hermenêutica e Consciência – da viscosidade úmida dos mundos", publicado em coletânea da Fonte Editorial/Paulinas, deparei-me com artigos depositados na página do NEI - Núcleo de Estudos e Pesquisas Indiciárias, da Universidade Federal do Espírito Santo. Foram artigos muito bons. Ontem, reformatando-o, entre espirros e febre, para moldá-lo à composição da Caminhos, re-encontrei a página, testando os links. Dessa vez, vou registrá-la.

2. Aqui, o link para a Página Principal - http://www.indiciarismo.net/. Aqui, link para a Sinais - Revista Eletrônica do NEI. Na Página Principal da Sinais, uma epígrafe de Ginzburg: "Se a realidade é opaca, existem zonas privilegiadas - sinais, indícios - que permitem decifrá-la [Carlo Ginzburg, 1989]". Isso é bálsamo para meus olhos críticos, olhos como os do ogro da lenda... Aproveitem.


OSVALDO LUIZ RIBEIRO

sexta-feira, 23 de abril de 2010

(2010/012) Comentário a Sinais (II)


1. Meu segundo comentário ao trecho transcrito de Sinais. Dessa vez, ao seguinte parágrafo:

"Apesar desses resultados, o método de Morelli foi muito criticado, talvez também pela segurança quase arrogante com que era proposto. Posteriormente foi julgado mecânico, grosseiramente positivista e caiu em descrédito. (Por outro lado, é possível que muitos estudiosos que falavam dele com desdém continuassem a usá-lo tacitamente para as suas atribuições). O renovado interesse pelos trabalhos de Morelli é mérito de Wind, que viu neles um exemplo típico da atitude moderna em relação à obra de arte – atitude que leva a apreciar os pormenores, de preferência à obra em seu conjunto. Em Morelli existiria, segundo Wind, uma exarcebação do culto pela imediaticidade do gênio, assimilado por ele na juventude, no contato com os círculos românticos berlinenses. É uma interpretação pouco convincente, visto que Morelli não se colocava problemas de ordem estética (o que depois lhe foi censurado), mas sim problemas preliminares, de ordem filológica".

2. Quero aqui me deter na identificação da atenção ao pormenor, ao detalhe, como a marca da modernidade, na arte. Bem, quanto a isso, não o posso dizer. Mas posso afiançar que essa foi e é, ainda, uma marca da modernidade... na exegese. O fato de que há referência no parágrafo a uma atenção filológica da parte de Morelli justificaria a transposição do ambiente da arte para o ambiente da filologia, e, mais especificamente, ao ambiente da exegese.

3. Foi "culpa" da Reforma, inoculada pelo vírus árabe-aristotélico-renascentista, a leitura da Bíblia por outros que não um clero programaticamente interessado em tão-siomente regurgitar a Tradição, a Norma o Todo. O resultado não foi outro que não a emergência da crítica bíblica, já desde o próprio século XVI, com sucessivos avanços e aprofundamentos nos séculos XVII e XVIII. E foram justamente os detalhes - a leitura de versos específicos da Escritura - que produziram, por exemplo, em Jean Astruc a percepção de que Moisés não podia ter escrito o conjunto do Pentateuco, porque inúmeras passagens eram indiscutivelmente posteriores. Assim, como afirma Ginzburg a respeito da nova técnica de identificação de autoria de obras de arte, também a autoria das narrrativas bíblicas passou por uma crise de detalhes - a tradição ruiu, fragorosamente, salvo, naturalmente, lá, onde a Igreja manteve as cordas nas mãos.

4. No século XVIII, inicia-se, para as Escrituras, a era áurea da filologia - com um Simonis, por exemplo. De 1750 a 1850, a pesquisa bíblica deixa-se nortear - talvez como nunca mais - pelo viés "exclusivamente" filológico. É o império dos detalhes, cada palavra sendo analisada em seu contexto de origem, em sua dependência traditiva, ao ponto de conservadores assustados e acuados, em face da inter-referência hebraico-árabe em diversos léxicos, exclamarem: "eles querem usar os árabes contra nós"...

5. Após esse período áureo, os conservadores assumiram a nau capitânea. Por mais filológicos que sejam, os léxicos atuais ainda guardam evidências de satisfações teológicas ao "todo", isto é, ao normativo e tradicional, determinado pelas "autoridades". O verbo bará é um caso típico - desde a metade reacionária do século XIX que se empreendeu um esforço hercúleo para apagar a memória filológica do verbo, e tanto que, no século XX, afastaram-se todos os dicionários e léxicos daquele original de Gesenius, das primeiras décadas de 1800 - inclusive as traduções de Gesenius!

6. Mais recentemente, Childs, nos Estados Unidos, mas também há uma forte corrente alemã, apregoam o "canonical approach", que outra coisa não é que a velha norma e tradição, mudando de retórica: mudar tudo para manter tudo como está...

7. Ah, sim, a modernidade marca-se pela crítica. E a crítica, senhores, não se aplica ao "todo" - ao todo se aplica o gosto e, eventualmente, a perspectiva política. A Estética e a Política são perspectivas totalitárias. Já a Heurística, não: ela, para chegar ao todo, deve portar-se de modo indiciário, colhendo pista a pista, decompondo o todo em suas partes constitutivas, de modo, inclusive iconoclasta. Se a critica chegar diante de Deus, há de, primeiro, esquertejá-lo para, depois, julgar se era mesmo Deus... E, claro, não terá sido, como, de fato, nunca o é...



OSVALDO LUIZ RIBEIRO

sábado, 17 de abril de 2010

(2010/011) Comentário a Sinais (I)


1. Sigamos em frente, enquanto Daniel trata de se desincumbir do volume de afazeres que deve explicar seu silêncio constrangedor... Jutifico-me, portanto, em começar o comentário ao texto fundamental de Carlo Ginzburg, postado como inauguração de Perquirese.

2. Sinto-me muito à vontade diante de Sinais - raízes de um paradigma indiciário. Minha "espcialidade" no campo da Teologia - sou doutor em Teologia pela PUC-Rio - é a exegese da Bíblia Hebraica. Pratico a exegese em sua formulação histórico-social, que, por sua vez, consiste num desenvolvimento mais recente do método histórico-crítico (século XVII e XVIII). A abordagem histórico-social pressupõe o método histórico-crítico, mas avança para as questões sociais que perpassam a redação do texto. Eu não diria que o método histórico-crítico fosse ingênuo, como aqui e ali se quer fazer com que pareça, como se o método trocasse a realidade social por trás da redação das perícopes biblicas pela narrativa em si. Todavia, a abordagem histórico-social explicita que a exegese não se assume como "simples" trabalho crítico-literário, mas ambiciona converter-se em auscultação histórico-social do horizonte de produção de determinada narrativa.

3. Antes de ler Sinais, eu considerava que meu trabalho era, sobretudo, schleiermacheriano, isto é, que estivesse sobretudo interessado na intenção do autor (intentio auctoris - cf. Interpretação e Superinterpretação, de Umberto Eco, que, por sua vez, prefere uma aventada intentio operis que, a meu ver, deve satisfações de suas condições de possibilidade). No campo da exegese latino-americana, contudo, essa "opção metodológica" sofreu severas críticas, e foi vítima de programáticos ataques, dentre eles, talvez o maior, o livro Hermenêutica Bíblica, de José Severino Croatto, que, todavia, anos depois, dedicar-se-ia à reconstrução das camadas histórico-sociais (releituras) de Isaías e à Fenomelogia da Religião. Em 1984, contudo, tratava de classificar a exegese como "fraude teórica", afirmando que não passava de "eisegese" e "produção ideológica de sentido".

4. Imediatamente posicionei-me contra a tese de Croatto, que me valia críticas de amigos de profissão, até de amigos muito próximos (a "moda" da época era a "produção de sentido", como a de hoje é a "pós-modernidade"). Alguns me consideravam "positivista", outros, mais amenos, "neo-positivista". Não deve ser coincidência que o mesmo rótulo tenha sido afixado à testa de "Morelli", porque também ele "cismava" que podia entrever, nos detalhes (no caso dele, de pinturas), "marcas" - sinais! - de mãos humanas muito precisas - identificáveis até...

5. Depois que li Ginzburg, permaneci schleiermarchiano, porque em certos sentido e limites, Ginzburg também o é. Mas houve uma evolução no enquadramento da atividade exegética que eu já operava. Antes de ler Ginzburg eu já praticava a leitura "venatória" - a caça! -, já operava nos termos do paradigma indiciário, e foi isso que me fez "recusar" o veredito de Croatto. Ao lado da medicina, da política forense, da história, da arqueologia, da caça, também a exegese é uma atividade indiciária, com todas as suas virtudes e todas as suas insuficiências.

6. Assim como Morelli tratabalha com os detalhes dos quadros, é exatamente assim que eu trabalho com a Bíblia Hebraica. Antes de tudo, dando pouco valor ao que a tradição tem a dizer sobre os textos bíblicos. As tradições foram construídas durante os séculos da Idade Antiga e Medieval, sob os regimes epistemológicos próprios dessas eras, e estão carregadas de marcas pré-modernas, pré-críticas, de erros grossseiros, de falsificações políticas, de elaborações devocionais. Logo, salto por cima da tradição (é por isso que tenho profunda desconfia de Gadamer), e assumo o lema kantiano: sapere aude. Entro no texto bíblico para reconstruir o ambiente que o produziu, para, reconstruindo o ambiente que produziu o texto, compreender o texto a partir do ambiente que o produziu (aqui, nesse exato ponto, me vem à mente o gênio de Edgar Morin!, porque há um elemento de complexidade nessa atividade de, por meio de um, reconstruir o outro que, por sua vez, é o meio de reconstrução do primeiro - indico para o inadjetivável colosso moriniano: O Método).

7. Eu ainda me ressinto de uma demonstração irrefutável de minha prática. Ainda dependo da retórica de Relações de Força - e sei que é pouco. Talvez eu seja vítima, também, da arrogância que foi arrostada ao trabalho de Morelli. Seja como for, o texto bíblico tem muitos indicativos, muitos indícios, que ajudam a construir sua base de redação. Felizmente, a Bíblia Hebraica constitui-se de uma quantidade considerável de textos, de modo que se pode construir uma fenomenologia semântica razoavelmente segura, ainda que não se possa datar de modo absoluto cada faixa de significação dos termos tratados. No entanto, como se faz na arqueologia, referenciais cruzados podem ser datados mutuamente, principalmente se, para um dos referenciais, posui-se uma datação absoluta segura.

8. Mas, por exemplo, se você trata as ocorrências de nidda' (menstruação) na Bíblia Hebraica, selecionando e traduzindo todas as ocorrências do termo, você se dá conta de que há conjuntos de significações - do campo fisiológico e do campo político-religioso - que, à luz das datações médias dos textos em que ocorrem, podem ser explicados como evolução terminológica - uma histórica social do termo, por assim dizer. Munido dessa informação de conjunto, a exegese pressupõe conseguir base para compreender, à luz de estruturas de tempo e de política mais amplos, uma determinada passagem bíblica.

9. Não é que o texto se desmonte e dê lugar a uma série de termos flutuantes. Não - isso seria uma piada de mau gosto. Muito pelo contrário, a exegese deve trabalhar com a unidade textual inteira, intacta, sem dissolvê-la em sobredeterminações de termos quentes sobre termos frios - por exemplo, tomar uma profecia de Isaías, manejar um termo da profecia, e criar explicações ditas exegéticas, mas que sometne se sustentam sobre aquele termo, mas não resistem ao confronto das exigências sistêmicas quer dos outros termos da profecia, tomados isoladamente, quer do conjunto dos termos que a constituem. A exegese é trabalho eminentemente sintático - ou não é exegese. No entanto, é o rigor com a leitura e o respeito ao detalhe, ao papel de cada palavra, de cada relação sintática, de cada relação estrutural que dá ao trabalho exegético a segurança retórica de, ao término de seu trabalho, conquanto não possa "provar" indiscutivelmente, laboratorialmente, a sua tese, pode assegurar a viabiliade retórica da explicação/reconstrução plausível do texto.

10. Sim, o exegeta é um ogro faminto. Eu tenho muita fome de carne humana. Canibal, não leio palavras antigas - como carne, chupo ossos e lambo pele humana há muito embrulhados em rolos antigos...


OSVALDO LUIZ RIBEIRO

segunda-feira, 12 de abril de 2010

(2010/010) Eric Hobsbawm, sobre a história à frente


1. Uma pausa em Ginzburg. Trecho da entrevista concedida pelo historiador inglês Eric Hobsbawm à revista New Left Review, por sua vez publicada na Folha Online (via Nassif, aqui), nesse domingo, 18. Acentuo, em vermelho, os recortes que considero mais relevantes.

Pergunta - Em "Tempos Interessantes" [publicado em 2002], o sr. expressou reservas consideráveis em relação ao que eram na época modismos históricos recentes. O sr. acha que o cenário historiográfico continua relativamente inalterado?

Hobsbawm - Estou cada vez mais impressionado com a escala do desvio intelectual verificado na história e nas ciências sociais desde os anos 1970. Minha geração de historiadores, que de modo geral transformou o ensino da história, além de muitas outras coisas, procurou essencialmente estabelecer um vínculo permanente, uma fertilização mútua, entre a história e as ciências sociais; era um esforço que datava dos anos 1890.

A disciplina econômica seguiu uma trajetória diferente. Dávamos como certo que estávamos falando de algo real: de realidades objetivas, embora, desde Marx e a sociologia do conhecimento, soubéssemos que as pessoas não registram a verdade simplesmente como ela é.

Mas o que era realmente interessante eram as transformações sociais. A Grande Depressão foi instrumental nesse aspecto, porque reapresentou o papel exercido por grandes crises nas transformações históricas --a crise do século 14, a transição ao capitalismo. Não foram, na realidade, os marxistas que introduziram isso --foi Wilhelm Abel, na Alemanha, o primeiro a fazer a releitura dos fatos da Idade Média à luz da Grande Depressão dos anos 1930. Éramos um grupo que procurava resolver problemas, que se preocupava com as grandes questões. Havia outras coisas cuja importância diminuíamos: éramos tão contrários à história tradicionalista, à história dos governantes e figuras importantes, ou mesmo à história das ideias, que rejeitávamos isso tudo.

Em algum momento da década de 1970, ocorreu uma mudança acentuada. Em 1979-80 a [revista de história] "Past & Present" publicou uma troca de ideias entre Lawrence Stone e mim sobre o "revival da narrativa" --"o que está acontecendo com as grandes perguntas 'por quê'?". De lá para cá, as grandes perguntas transformativas vêm sendo esquecidas pelos historiadores, de maneira geral.

Ao mesmo tempo, ocorreu uma expansão enorme do âmbito da história --passou a ser possível escrever sobre qualquer coisa que se quisesse: objetos, sentimentos, práticas. Parte disso era interessante, mas também se viu um aumento enorme do que se poderia chamar de história de fanzine, na qual grupos escrevem com o objetivo de se sentirem mais positivos a seu próprio respeito.

O exemplo clássico disso é o dos indígenas americanos que se recusaram a acreditar que seus ancestrais tivessem migrado da Ásia, afirmando "sempre estivemos aqui".

Boa parte desse desvio foi político, em algum sentido. Os historiadores oriundos de 1968 não se interessavam mais pelas grandes perguntas -- pensavam que todas já tinham sido respondidas. Estavam muito mais interessados nos aspectos voluntários ou pessoais. O [periódico] "History Workshop" foi um desenvolvimento tardio desse tipo.

Não acho que os novos tipos de história tenham produzido quaisquer mudanças dramáticas. Na França, por exemplo, a história pós-Braudel não se compara à que foi feita pela geração dos anos 1950 e 1960. Pode haver trabalhos ocasionais muito bons, mas não é a mesma coisa. E estou inclinado a pensar que o mesmo pode ser dito do Reino Unido. Houve um elemento de antirracionalismo e de relativismo nessa reação dos anos 1970, que, ao todo, constatei ser hostil à história.

Por outro lado, houve alguns avanços positivos. O mais positivo destes foi a história cultural, que todos nós, inegavelmente, tínhamos deixado de lado. Não prestamos atenção suficiente à história do modo como ela de fato se apresenta a seus atores.

O livro "A Europa e os Povos Sem História" [Edusp], de Eric Wolf, é um exemplo de uma mudança positiva nesse respeito.

Também ocorreu uma ascensão enorme da história global. Entre não historiadores tem havido muito interesse pela história geral -- ou seja, em como a raça humana começou. Graças a pesquisas de DNA, hoje sabemos muita coisa sobre a expansão de humanos através do planeta. Em outras palavras, dispomos de uma base genuína para uma história mundial.

Outro avanço positivo, em grande medida por parte dos americanos e em parte, também, dos historiadores pós-coloniais, tem sido a reabertura da questão da especificidade da civilização europeia ou atlântica e da ascensão do capitalismo -- "The Great Divergence" [Princeton University Press], de [Kenneth] Pomeranz, e assim por diante. Isso me parece muito positivo, embora seja inegável que o capitalismo moderno surgiu em partes da Europa, e não na Índia ou China.

Pergunta - Se o sr. tivesse que escolher tópicos ou campos ainda inexplorados e que representam desafios importantes para historiadores futuros, quais seriam?

Hobsbawm - O grande problema é um problema muito geral. Segundo padrões paleontológicos, a espécie humana transformou sua existência com velocidade espantosa, mas o ritmo das transformações tem variado tremendamente. Isso claramente indica um controle crescente sobre a natureza, mas não devemos imaginar que sabemos para onde isso nos está conduzindo.

Os marxistas focaram, com razão, as transformações no modo de produção e em suas relações sociais como sendo geradoras de transformações históricas.

Contudo, se pensarmos em termos de como "os homens fazem sua própria história", a grande questão é a seguinte: historicamente, comunidades e sistemas sociais buscaram a estabilização e a reprodução, criando mecanismos para prevenir-se contra saltos perturbadores no desconhecido. A resistência à imposição de transformações de fora para dentro ainda é um fator preponderante na política mundial, hoje. Como, então, humanos e sociedades estruturados para resistir a transformações dinâmicas se adaptam a um modo de produção cuja essência é o desenvolvimento dinâmico interminável e imprevisível?

Os historiadores marxistas poderiam beneficiar-se da pesquisa das operações dessa contradição fundamental entre os mecanismos que promovem transformações e aqueles que são voltados a opor resistência a elas.



OSVALDO LUIZ RIBEIRO

sábado, 10 de abril de 2010

(2010/009) Da Pré à Pós-Modernidade


1. Redigi, "em transe", o brevíssimo ensaio (2010/307) Quiasmo da Modernidade - ou a síntese da reação à crítica como fundamento do humanismo moderno, publicado em Peroratio. A imagem que o acompanha, intuí-a drante minhas aulas de Hermenêutica, na Faculdade Batista do Rio de Janeiro. Desenhei-a no quadro-de-pincel, à medida que expunha as etapas do desenvolvimento moderno da disciplina. Reproduzo-a aqui:


2. Redigi o post em Peroratio por força das reações que Daniel tem me provocado, com seu texto. No fundo, considero que Ginzburg recusa-se, no que eu o acompaho, quer o retorno à Pré-modernidade, quer o "avanço" em direção ao "nirvana" da Pós-modernidade. Ginzburg resiste. Diria que Ginzburg estabeleceu raízes na região primeiro-heideggeriana. Somos, por isso, concidadãos.


OSVALDO LUIZ RIBEIRO

(2010/008) Comentário à terceira reação do Osvaldo em (2010/007)



1. Acho que esse seu post encontra resposta, ou pelo menos, comentário, no que escrevi em 2010/010, o que acha?

2. A frase com que você abre seu post (2010/011), de minha autoria, é minha mesmo. Essa não retirei de nenhum lugar e nem li em qualquer livro. A conclusão baseia-se, talvez, na observação do departamento de Teoria da História do IFCS-UFRJ. O procedimento dos professores desse departamento estão em uma cruzada pró narrativa histórica ou narratologia. Esse processo, patético, teve sua origem em uma ferrenha defesa da subjetividade histórica e nas mais “puras” raízes de pressupostos pós-modernos. Eu não sei se diria ser essa afirmativa compatível com a “teleologia do estruturalismo”, mas, no fim das contas, eu o disse! Que seja, então...

3. A mim também causa alguma dúvida em Gadamer sobre círculo de compreensão e a inserção que ele faz na análise (ou desprezo) da Tradição. Estou retomando meus alfarrábios sobre o assunto. Nesse particular Ricouer ajuda... ou não? O que achas?

4. Por fim, para enriquecer nosso debate, bem como endossar uma conversa que tivemos há pouco por telefone uso também a frase de Ginzburg sobre fuga da história para indicar a leitura de Domenico Losurdo em “Fuga da História?” (Sobre a Revolução Russa e Chinesa). O tema dele não tem precisamente pontos de contato com esse núcleo de nosso debate aqui, mas, de certa forma, pontua questões interessantes sobre o aspecto da fuga da história se explicar historicamente. Minha intenção é ilustrar, via Losurdo, o que o Estruturalismo tentou perpetuar com seu discurso “verdadeiro”, ou seja, retórico e estético (Vattimo)...


DANIEL BRASIL JUSTI


(2010/007) Terceira reação ao 2010/002 do Daniel


1. "A micro-história então é precisamente a reação ao que os estruturalistas pretendiam levar a cabo, reduzir todo conhecimento histórico ao nível da narrativa". Esta é uma "descrição" da teleologia estruturalista a que ainda não havia prestado (suficiente) atenção. Mais uma vez, meu amigo, gostaria de saber por que caminhos você chegou a essa intuição: a) é sua, e, se é, como a engendrou?, b) é de terceiro?, de quem, então?

2. É muito interessante. Eu perseguia - sempre contrariamente a ela, claro - a teleologia "desumanizante" do estruturalismo. No fundo, é o que me faz ter "bronca" com o "segundo" Heidegger (Linguagem) e com (alguma coisa ainda não muito precisamente paupável em) Gadamer (Tradição). Penso que, de certo modo, o Estruturaismo é o Calvinismo secularizado: o "sistema" acima do indivíduo, sobredeterinando o indivíduo. Assim como a Razão tornou-se deusa na retórica imperialista napoleônica (José Carlos Reis), a Estrutura tornou-se deusa na retórica estruturalista do século XX, que, a meu ver, passou agradecidamente pela reflexão filosófica do segundo Heidegger, ainda que se tenha consubstanciado mais numa Antropologia engajada.

3. Talvez a relação Estruturalismo - Narrativa advenha da "moderna" narratologia, e esse choque de "modernidade" desemboque na História-como-narrativa. Tenho tanta aversão - é psicossomático! - à tese da História-como-narrativa que, inadvertidamente, em concurso público para a cátedra de Teoria da História, pronunciei-me criticamente em relação a ela. Certamente foi mais minha inexperiência em História do que minha honestidade epistemológica que me levaram ao fracasso ali... Seja como for, penso que, no campo da História, Relações de Força constitua um golpe de morte na retórica estruturalista. "A fuga da história também se explica historicamente"... Bravo!, Ginzburg...


OSVALDO LUIZ RIBEIRO

sexta-feira, 9 de abril de 2010

(2010/006) Comentário à segunda reação do Osvaldo em (2010/005)



1. Antes de mais nada devo demonstrar o caminho heurístico que me levou à intuição de que: "Os teóricos proponentes de uma micro-história emergem de um marxismo pouco inclinado à metafísica." A afirmação tem duas explicações para ter saído de meu teclado: (a) LEVI, Giovanni. Sobre a micro-história. In: BURKE, Peter. A escrita da história. São Paulo: Unesp, 1992. p. 133-161; e, a outra, (b) intuição a partir de outras leituras, debates na faculdade e observações das disputas retóricas no campo da política.

Como diria Jack, o estripador, vamos por partes...

2. A citação: “Aqueles historiadores que aderiram à micro-história em geral tinham suas raízes no marxismo, em uma orientação política para a esquerda e em um secularismo radical com pouca inclinação para a metafísica. Apesar do fato dessas características estarem manifestadas de modos amplos e diversos, acredito que serviram para ancorar firmemente esses historiadores à idéia de que a pesquisa histórica não é uma atividade puramente retórica e estética.” (p. 135).

Aqui Levi resume o que entende por certa “gênese” do pensamento de teóricos da micro-história em “sua polêmica programática com o Estruturalismo e a pós-modernidade não-fundacional” – como você mesmo redigiu, caro blogueiro.

A meu ver é uma percepção precisa, porém Levi está “roubando”. Por que? Ora, porque além de ser italiano, morar na Itália, ter inúmeras bibliotecas de excelentíssima qualidade à disposição e ainda estudar temas que lhe estão a dois palmos de distância na estante da biblioteca, ele ainda tem os debates originários entre essas correntes teóricas. Nós, aqui no térreo do mundo, estaríamos fritos se dependesse somente de nós para essa conclusão. Ou não. Explico.

3. É certo que o acesso às melhores bibliotecas, estar no centro dos debates acadêmicos e, ainda, no calor do momento em que ocorrem, é uma vantagem inigualável, porém, aqui no térreo do mundo, também temos essa possibilidade.

Digo isso, pois essa frase que postei no blog, originalmente, foi sim retirada do livro do Burke, porém, dela já me valia bem antes disso. Direi o porque.

O caminho que percorri para tal conclusão iniciou-se com a leitura de Françoise Dosse – História do Estruturalismo. No volume dois é quase hierofânica a experiência de ler os altos e baixos entre história e/ou estruturalismo, só lendo para perceber. Mas ali, quando iniciei minha leitura, há alguns anos, parei. Retomei Saussure, li todas as premissas de seu póstumo “Curso de linguística” e em seguida apoiei-me em Jean-Marie Auzias – “Chaves do Estruturalismo”. Retomei a leitura de Dosse. Pronto, estava claro para mim a polêmica que estava em jogo. Althusser bem que tentou salvar uma história estruturalista, mas foi a “virada antropológica” dos Annales que situou o debate, na minha opinião, mais precisamente. Do lado do Estruturalismo a história perdia seu fôlego e a subjetividade tinha a última palavra sobre epistemologia, mas, por outro, as constantes interpelações da antropologia sobre a história movram Clio na direção de uma virada inevitável. Sahlins e Geertz ajudaram muito a me mostrar, na prática, o que representava essa “dobra” em Clio.

A alternativa do Estruturalismo, desconsiderando o “louco” do Althusser, frente ao marxismo? Simples: Derrida e o “super” pós-estruturalismo/modernismo via desconstrutivsimo. Para mim, o quadro ficou desenhado, não precisava mais de Levi, porém, a citação acima mencionada endossou minha visão.

Me fiz entender, Osvaldo? Reaja, por favor!

Me fiz entender, leitor? Os comentários estão aí para isso, escreva!

Ah! Quase ia me esquecendo: sabe qual a cereja do bolo nesse cenário todo? “Relações de Força”, de Ginzburg!

4. Osvaldo, caro amigo, o seu comentário sobre modelos sociológicos, calvinismo, alegoria e metafísica disfarçada talvez não tenha sido o melhor caminho comparativo, pois o público que aqui nos lê, provavelmente não está familiarizado com esse contexto “teológico” de disputas. Isso, talvez comprometa o entendimento do que você quis dizer a quem não é da área, mas eu entendo o que você quis dizer. Sobre isso tenho a acrescentar que a sociologia, para mim, nesse particular de engendrar modelos explicativos de estrutura social, nada mais faz do que recorrer ao modelo estruturalista. Veja, por exemplo, e para mim isso é fundamental para perceber o quadro que você, com termos teológicos pintou, os debates entre as teorias de Geertz e Strauss.

Strauss e a antropologia estrutural, explicativa e o sentido na Estrutura, sim, evocava uma “estrutura” (metafísica) para explicar e compreender fenômenos culturais de longa duração. Claro, seu contexto de pós guerra fazia imperativa a explicação do sem sentido do conflito, mas chamar essa causa de “estrutura” e travestir o conceito científico de hipótese heurística para dar conta de uma questão existencial é, sim, puro calvinismo, nesse sentido. Geertz, por outro lado, com uma antropologia interpretativa, compreensiva e calcada na objetividade da etnologia nunca negou a dimensão histórica (no sentido pós-iluminista do termo), concreta, real, material.

A distinção entre esses dois olhares antropológicos evidenciam bem a necessidade que cientistas têm de fugir do politicamente incorreto positivismo, mas continuar nele, com outra roupa. Essa atitude os exime da falida metafísica, mas os conferem status de cientificismo.

5. Por fim, faço coro com você em saudar não a micro-história, pois essa é um construto conceitual taxonômico de pós-estruturalistas e uma roupagem científica aos não metafísicos de linhagem marxista que a vestem para entrar no debate. Mas saúdo o paradigma indiciário como um modelo epistemológico tão primário (no sentido de evidente, claro, real, material, concreto) que pressupõe olhos humanos para desvendá-lo. E aí sim, aí estamos fazendo o que o século XIX nos legou. E mais: somos honestos em assumir o jogo heurístico da modernidade sem subterfúgios metafísicos das “estruturas” e nem centrar toda verdade no sujeito, como bem querem os discípulos de Derrida...


DANIEL BRASIL JUSTI

quinta-feira, 8 de abril de 2010

(2010/005) Segunda reação ao 2010/002, do Daniel


1. "Os teóricos proponentes de uma micro-história emergem de um marxismo pouco inclinado à metafísica". Daniel, vou comentar essa sua declaração. Outra hora, seria conveniente que desse satisfação da fonte dessa declaração: se ela é sua, e nesse caso, cOm base em que dados, ou se ela é de terceiros, e onde está. Num ou noutro caso, contudo, ela me parece adequada.

2. Nosso amigo comum, Élcio Sant'anna, algumas vezes discutimos sobre metodologia. Eu sempre lhe fiz saber, mas apenas recentemente discutimos seriamente essa questão, por telefone!, que a aplicação metodológica dos modelos sociológicos sempre me pareceu uma tentativa retórica e programática de desvio do "positivismo", mas que, a rigor, constituía-se numa redução metafísica. O sujeito, para não se revelar, ao cabo dos trabalhos, um "positivista", dizia empregar o modelo weberiano, por exemplo. Assim, ele podia alegar que seus pressupostos estavam alicerçados no modelo sociológico xis, e que sua atitude heurística não era negligente da ideologia comum a toda operação humana...

3. Contudo, eu lhe dizia - e com que cargas d'água Weber construiu seu modelo? Não teria sido por meio de observação da sociedade? Ora, se a observação da sociedade, por Weber - como, de resto, por qualquer sociológico - produz um sistema, e os sociológicos atuais usam tal sistema para fugir de um positivismo demonizado, como explicar que a observação positiva da sociedade tenha produzido o modelo-base antes do modelo? Se, com todos os riscos positivistas, Marx, Weber, Durkheim e toda a sociedade dos sociológicos não observaram a realidade, quando estabeleceram seus respectivos modelos, qual a diferença entre eles e Alice no País das Maravilhas? Mas porque um sociólogo se acha justificado aplicando modelos weberianos, mas não, por exemplo, o calvinismo? Calvinismo é mito. Ponto. Mas, se a base metodológica dos sistemas sociológicos não é próximo-positivista, quero dizer, materialista, heurística, então a base sociológica não é nada além de uma miragem estética e política, igualzinho ao calvinismo.

4. O pavor do real, a superficialidade em discutir as implicações da virada hermenêutica nas ciências, faz um sujeito empregar Durkheim ao mesmo tempo em que critica a Exegese... e a História. Mas, no fundo, na aplicação de Durkheim, está pressuposta a base material e positiva, "objetiva", ´pressuposta na origem do modelo durkheimiano.

5. Por outro lado, a tentativa de driblar a positividade heurística da modernidade crítica por meio do recurso aos "modelos" sociológicos reintroduz a metafísica, mas uma metafísica não-mitológica, como o é a da teologia, mas uma metafísica platônico-idealista que não a diferiria, em absoluto, de um jogo epistemológico não-fundacional, puro exercício diletantista, estético, comercial, "consumível". O sujeito "pega" o modelo e o aplica... Ora, o nome disso é alegoria, e nada mais do que isso. Você pode pegar qualquer sistema e aplicá-lo sobre qualquer coisa. É assim que a teologia faz com a Bíblia, por exemplo, qualquer teologia. Todas as teologias são bíblicas!, isto é, todas as teologias aplicam-se forçosamente sobre o texto bíblico, fazendo-o dizer o que elas, as teologias, querem que ele, o texto, diga. Do mesmo modo, posso "ler" qualquer estrutura histórica por meio de modelos - marxista, weberiano, durkheimiano, paretiano. Alegoria travestida de investigação...

6. Nesse sentido, eu saúdo a perspectiva da micro-história, nesse particular materialista. Talvez essa saudação se deva ao fato de eu me enxergar no método. Sou acusado até por meus amigos de ser neo-positivista... Fazer o quê? Dizer-me neo-positivista é não entender nem o positivismo e nem a mim, mas eu relevo. Isso fica para outro dia. O que me encanta na micro-história é seu parentesco com o paradigma indiciário - a metodologia venatória que a fundamenta, quando e se a fundamenta. É preciso ser materialista na pesquisa, no sentido de que é necessário lidar com o fato bruto - conquanto eu não descuide, um só monmento, de que há uma teoria implícita ou explícita entre mim e o fato bruto, e que o materialismo objetivo da pesquisa faz-se operar o tempo todo dentro de um tonel ideológico. Suprima-se o fato bruto, e a pesquisa se transforma em histórias de Peter Pan. Suprima-se a teoria mediadora, e a pesquisa se transforma em self deception. Não se pode nem começar pelo fato bruto em si, nem pela teoria mediadora - tem-se de lidar com os dois, ao mesmo tempo. Como faz o caçador, eu diria.

7. Faz sentido?


OSVALDO LUIZ RIBEIRO

terça-feira, 6 de abril de 2010

(2010/004) Reagindo à primeira reação do Osvaldo em (2010/003)

1. Como prometido, vou estabelecer nesse post, a ligação que fiz entre o que disse no 2010/006 e o assunto desse blog. Bem como reagir à primeira reação do Osvaldo em 2010/003.

2. Explico.
É precisamente por me ocupar de temas como os citados em minha trajetória profissional, acadêmica e de vida que o blog nasce com essa “cara”, com esse “jeitão”.

3. Comecei minha trajetória, em pré-vestibulares, mirando a especialidade médica, medicina. Encantava-me (e ainda encanta) uma ciência, por meio da qual, é possível observar as patologias, fisiologias e dinâmicas de um organismo vivo, enquanto vivo ou morto, nesse caso, a medicina forense. Reconstruir uma causa mortis a partir de uma pequena partícula que fora investigada no cadáver, ou ainda, perceber processos patológicos que geravam um sinal em uma parte específica de todo organismo vivo e descobrir a dinâmica de sua ação, por meio de presença de um pequeno sinal. Fiz o vestibular, três vezes. Na terceira vez, cansado, fiz também para Teologia – menino sonhador, sabe? – escolhi a Teologia. Lá fui eu, com planos de mudar o mundo...
Logo no primeiro período de faculdade fui matriculado na disciplina “Ciências da Bíblia”. O professor? Bem, vocês o conhecem desse blog mesmo. Quatro horas, toda sexta, de pura experiência acadêmica, crítica, científica. Tomei gosto pela coisa. Quando crescesse, queria ser EXEGETA. Palavra bonita. Era legal minha mãe falar que eu estava estudando para ser “exegeta”...
Bom, antes que o querido leitor se enfadonhe com uma rasa biografia, sigo adiante rumo ao assunto principal.

4. Aquele meu primeiro período na Colina fora decisivo. Tal qual uma pedra arremessada na superfície de um lago, as ondas de paixão pela ciência me levaram à faculdade de Letras, português-grego, ufrj. Ali aprendi estruturalismo, lingüística, aquisição de linguagem, mas fundamentalmente, percebi a estreita ligação entre o desenvolvimento de teorias lingüísticas e a imediata aplicação delas à realidade científica. Onde era texto, agora é sociedade. Onde era retórica, dissertação literária na teoria literária, nas ciências sociais e humanas se transformavam em teorias, métodos, etc. Ao chegar a esse ponto e ao ler Nietsche – “todo bom teólogo é mau filólogo”, pulei fora de Letras, sorte a minha coincidir com meu ingresso no mestrado da PUC-Rio em Teologia Bíblica, pois como as aulas na Letras só aconteciam de manhã e na PUC também, dei preferência ao meu mestrado. A conseqüência de todo esse imbróglio foi minha transferência de curso de Letras para História, na mesma ufrj, assim não “perderia” metade de uma graduação...

5. Começando a faculdade de História, no primeiro período, de novo, conheci André Chevitarese. Ou eu preciso fazer primeiros períodos mais vezes ou foi pura coincidência... Foi ali, precisamente ali, que me engajei nos estudos sobre religião e cristianismo antigo de um ponto de vista laico, mais científico e menos confessional, orgânico. De imediato, ao conhecer Chevitarese, comecei a pesquisar a magia no cristianismo antigo. O ponto de partida foi um indício, um rastro, uma pegada que o autor – Paulo – deixou em Gálatas 3,1. A partir dali comecei, de fato a perceber que há vida fora das igrejas...

6. Todas as descrições que fiz em 2010/006 e as que aqui elenquei acima, são os antecedentes de um encontro que me situou na academia: o estudo da história por meio de indícios, sinais. Muito embora não goste das classificações e rótulos teóricos estabelecidos no meio científico, é (quase) possível minha inserção na micro-história – sobre isso, basta ler o post 2010/002. O meu gosto pelos pormenores mais negligenciáveis, ou seja, o oposto de badalações dos “grandes feitos” ou classificações generalizantes me ocuparam a mente desde sempre. E foi precisamente em Gizburg que encontrei o caminho para assim proceder cientificamente. A natureza desse trabalho já enunciei em 2010/002.
7. Há ainda, não só em Ginzburg, outro caminho que me encantou. O das interações culturais. Servindo-me de Marshal Sahlins e Cliford Geertz passei a estudar as conseqüências e resultados advindos de um encontro entre duas culturas diferentes. Fruto da “virada antropológica” da história e de um marxismo mais aprofundado e historicamente materialista, avesso à sequidão retórica pós-moderna, os historiadores dos Annales conferiram outra dimensão aos fatos históricos, mas esse debate fica para outro post.

8. Ainda, devo acrescentar, que interações culturais, encontro entre culturas diferentes, se dá, ou pelo menos nos é possível arrazoar sobre, por meio de vestígios, de documentação que a nós se apresentam e precisam ser entendidas à luz de seu contexto primevo. Nesse sentido, sim, a exegese completa a história e vice-versa, Osvaldo. Acredito que aqui, precisamente depois desse meu parágrafo, cabe a leitura do ponto cinco de 2010/003 do Osvaldo. O que, não por acaso, nos faz co-irmãos nesse blog.

DANIEL BRASIL JUSTI

domingo, 28 de março de 2010

(2010/003) Reagindo ao 2010/002 do Daniel


1. Meu amigo Daniel. Seu texto "inaugural" é muito bom. Gostei principalmente da relação que você explicita entre paradigma indiciário, micro-história e "Marxismo" de um lado, e, de outro, sua polêmica programática com o Estruturalismo e a pós-modernidade não-fundacional. Essa, precisamente essa, é minha inserção na História. Eu quero, aqui, explicitar minha relação com esse paradigma.

2. Sou basicamente um exegeta, um exegeta histórico-crítico, um exegeta histórico-social. Exegeta, porque lido com um determinado texto histórico antigo - a Bíblia Hebraica (naturalmente que o termo "histórico" aqui traduz a condição física do documento, e não a sua caracterização retórica). Exegeta histórico-crítico, porque me filio à corrente crítico-filológica que tem origens muito remotas - um Lourenço Valla, por exemplo -, mas que consolidou-se entre meados do século XVIII e meados do século XIX. No meu campo de ação - a Teologia - essa corrente crítico-filológica foi alvo de acirrada e severa reação conservadora. Dois momentos reveladores: primeiro, dentro da reação, dizia-se, contra as gramáticas de hebraico, por exeplo, de um Gesenius, por filológica que eram, que "eles querem usar os árabes contra nós" - isso porque a filologia destruía, "impiedosamente", os castelos teológico-alegóricos supostamente sustentados pelo texto bíblico: bastava um sopro da exegese e, puff!, caíam todos, como caem, até hoje. Segundo, a declaração de Nietzsche, em O Anticristo - "todo bom teólogo é um mau filólogo"... Finalmente, histórico-social, porque, para mim, não é o texto quem fala: quem fala é seu autor, discursivamente. Não tenho o autor. Tenho o texto. Texto que é, a um só tempo, mudo e polissêmico. Mudo, porque não fala nada. Polissêmico, porque podemos usá-lo - e disso abusar - para dizer - mas é nós quem o dizemos - o que quisermos...

3. Assim, minha inserção na Exegese é inegociavelmente histórica, científico-humanista, "arqueológica", crítica, historiográfica. Quando li Apologia da História, de Bloch, reconheci-me imediatamente no ogro. Mas, a rigor, não sou exatamente um historiador, conquanto se não me faço historiador, não sou o que digo ser - exegeta. Por outro lado, tampouco um historiador, se não se faz exegeta, bem, não acredito que esse venha a ser um bom historiador.

4. Explico: História e Exegese são especialidades instaladas no mesmo campo epistemológico, teórico-metodológico e paradigmático. Mas são diferentes, em termos de seu objeto. O objeto do historiador, pelo menos o não-não-fundacional, o não-pós-moderno, é o "passado", que, está bem, será "(re)construído" retoricamente, mas cujo critério critico continua sendo não a reconstrução em si, mas o passado que foi, singular e concreto. Já o exegeta tem por objeto não o "passado", na condição de objeto, mas um pedaço dele, um fragmento, um evento dentro dele - um "texto". Destacada a diferença, onde os dois se encontram? No meio do caminho, e no campo de trabalho, quando do trabalho de campo. O exegeta precisa reconstruir o passado, para, inserindo dentro dele o pedaço que tem nas mãos, enteender um em função do outro, e, assim, compreender o seu objeto. Já o historiador precisa reconstruir o passado, e para isso, utiliza-se de um fragmento dele, para, assim, reconstruindo um em função do outro, compreendendo a ambos, compreender seu próprio objeto.

5. O que é objeto para o historiador é meio para o exegeta, e o que é objeto para o exegeta é meio para o historiador. Por isso, Carlo Ginzburg reúne as virtudes que me causam admiração. Por isso, o paradigma indiciário me apaixona, porque dá nome e estrutura epistemológica - tão simples! - ao meu "trabalho". Ginzburg descreve rigorosamente o que eu tento fazer - que é investigar um indício do passado, uma pista do passado, como um caçador, um investigador de política, um arqueólogo - como Sherlock Holmes. Os autores das milhares de perícopes históricas que, enquanto exegeta, tento decifrar são meus Menocchios particulares...

6. Seu texto é um bom ponta-pé. Mais tempo, e comentarei as sessões que me parecem mais relevantes. Por agora, fica o abraço.


OSVALDO LUIZ RIBEIRO